domingo, 16 de novembro de 2025

 Segurança Pública: reflexões que não cabem no impulso

Por João Batista - jbatist7@gmail.com 

A participação cotidiana de policiais e delegados no enfrentamento direto da violência — frequentemente enquadrada no imaginário como uma luta entre “mocinhos e bandidos” — tende a produzir um olhar moral dicotômico que reduz a complexidade estrutural da segurança pública. Segundo Skolnick (2011), a rotina policial cria o que ele denomina working personality, (personalidade trabalhadora) marcada pela suspeita permanente e pela percepção constante de ameaça e risco, dificultando análises mais amplas sobre as causas sociais da violência.

Para Wacquant (2008) essa imersão (estar do lado de dentro) em cenários de conflito reforça respostas simplificadas e punitivistas, tornando tais agentes incapazes de discussões técnico-científicas "distanciadas" que são necessárias para compreender o fenômeno criminal em sua totalidade. Não conseguem, pelas circunstâncias, escaparem da visão situacional da arena onde atuam de forma direta, que é a manifestação das consequências (e não das causas) e vitimam a todos.

Nesse contexto, o cotidiano institucional tende a reforçar uma cultura de enfrentamento, baseada em valores como coragem, risco e hierarquia, o que muitas vezes obscurece abordagens preventivas e intersetoriais. Bayley (2006) observa que corporações policiais, quando concentradas exclusivamente na resposta imediata ao crime, dificultam a incorporação de estratégias de longo prazo baseadas em evidências. Klockars (2005) complementa que a cultura profissional pode moldar comportamentos que naturalizam o uso da força como solução primária, e tida como a única possível, limitando a capacidade dos agentes de desenvolver visão crítica sobre políticas de segurança pública e fortalecendo uma lógica de “guerra” que se retroalimenta, eternizada no andar de baixo da sociedade.

Por essa razão, o debate sobre segurança pública precisa ser conduzido por equipes multidisciplinares com formação em criminologia, psicologia, administração pública e direitos humanos. Zaffaroni (2015) enfatiza que a violência policial não pode ser entendida apenas como ação individual, mas como resultado de estruturas institucionais, condições de trabalho e formação profissional inadequada. Nem a violência do bandido é uma ação individual, mas de um corpo em movimento.

Para Bauman (2013), as sociedades marcadas pelo medo tendem a legitimar respostas imediatistas e letais, o que também coloca em risco a vida dos próprios policiais, que “matam com convicção” não apenas pela função que exercem, mas pela pressão simbólica e emocional que vivenciam. Assim, somente uma abordagem crítica, científica e responsável pode proteger simultaneamente a população e os agentes de segurança.

Sem compreender as causas e cortar a raiz que nutre o sistema do crime, tudo o que veremos é sempre mais crimes.


Referências


BAYLEY, David H. Padrões de policiamento: uma análise internacional comparativa. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.

BAUMAN, Zygmunt. Vigilância líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

KLOCKARS, Carl B. The idea of police. 2. ed. Thousand Oaks: Sage Publications, 2005.

SKOLNICK, Jerome H. Justice Without Trial: Law Enforcement in Democratic Society. 4. ed. New Orleans: Quid Pro Books, 2011.

WACQUANT, Loïc. Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Revan, 2008.

ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Criminologia: Aproximação crítica. 2. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2015.